O poeta por isso mesmo, tem o seu lugar determinado. E ele se movimenta por sortilégio que a própria vida se encarrega de caracterizá-lo. Dir-se-á que ele fez uma opção pela vida do sonho, mas sempre essa afirmativa se coloca acima do tumulto do dia-a-dia, abstraindo-se do peso conjuntural de uma disputa em que não contam os valores da inteligência, mas a malícia e a capacidade de superação na luta.
terça-feira, 29 de outubro de 2024
Eu não vou pedir licença à vida, por medo de existir. Eu não vou defender o meu passado, porque eu não vivo mais nele. Eu não vou me justificar já que as pessoas só ouvem mesmo o que querem ouvir. Não admitirei que me culpem por conseguir aceitar o fim, pra que possam dormir em paz no apagar das luzes. (Boa noite, dorme bem. Recebam o beijo da tua própria ignorância.) Eu não vou mais me explicar. Eu odeio me explicar. Explicar envelhece. Eu não darei mais conselhos sobre o que sobrou depois do fim de amores. Sobrou tu, achas pouco? Estou farto de me fitarem sempre como uma página que precisa ser virada. Eu não irei lamentar mais do que uma vez, porque eu não suporto a mendicância. Eu não deixarei que me azedem a saliva ou que me engasguem num soluço. Eu não irei rir se não estiver achando graça. Não atenderei o telefone se eu não estiver com vontade de conversar. Não voltarei em casa pra ver se tranquei a porta. Sou educado até certo ponto. Não vou mais mentir porque o outro não suporta a realidade escancarada. Não me movimentarei entre as pontas como quem busca escorar-se pelas paredes. Não permitirei que me acertem suas flechas aos poucos, como quem não quer acertar. Ou como quem quer acertar mas não anuncia isso aos gritos. Esse será o meu jeito suicida de abraçar o mundo. Porque se é fácil morrer aqui, mais fácil ainda é apenas desmoronar. De uma vez por todas, eu não vou mais gritar para que me ouçam - que se ensurdeçam todos de uma só vez! Tantos palavras de apoio que dei quando eu mal sabia de mim. Tantos textos que me senti na obrigação de escrever quando ninguém queria saber se do outro lado eu estava chorando. Tantos poemas que perdi por aí, tantos outros que fui obrigado a ouvir de graça pelo telefone… Recuso-me a esses trajes de mendiga, não tenho mais essas pretensões burras. Só não tente dar meu nome ao gosto que foge entre os teus dentes, não atreva-se a me restringir por não suportar o peso da infinitude dos teus próprios dias sôfregos. E quem ousar palpites sobre quem sou, ou no que me tornei, finja que a dor que sentes é minha, pra entreter essa tua dor fingida. Não me restrinjo as tuas limitadas perspectivas, não me permito a sua vasta enxurrada de desacontecimentos. A mim sempre me fora essencial a busca por desaprender todos os meus limites. O que fui, já nem me lembro. O que serei, ainda não sei. E o que eu sou, nem eu mesmo ousei escrever aqui, nesse meu orvalhar de possibilidades.
sexta-feira, 18 de outubro de 2024
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