sexta-feira, 5 de junho de 2020

EU TE VEJO

No bar à duas quadras do meu escritório.

Naquele supermercado onde nosso vinho preferido é mais barato.

No metrô em meio a multidão atordoada pelo ir e vir do cotidiano.

As vezes, atrás de mim, beijando minhas costas nuas, em frente ao espelho do banheiro logo após meu banho. (Eu nunca sinto medo, sei que não é real).

Nos olhos do nosso filho, quando eu o amamento, na risadinha que ele da idêntica à sua, vocês riem mostrando todos os dentes e deixando os olhinhos pequenos.

Nos portas-retratos da sala de estar. Não tive coragem de guarda-los em caixotes vazios.

As vezes, depois de tomar um ou dois comprimidos para aliviar a dor, que não é física e por isso demora mais para cicatrizar, quando me deito e saio de mim, eu ouço sua voz aveludada dizendo “hoje o dia foi longo não? O bebê está tão esperto… Cada vez mais parecido com você”. Sinto seu toque em meu rosto e luto contra meu eu interno para não abrir os olhos, pois sei que você não está ali.

Você não está em lugar nenhum a não ser em minhas lembranças e em portas-retratos. Eu preferia que estivesse em outra casa, com outra família, vivendo outra vida, do que você tivesse partido pra sempre. Você foi embora de uma forma que eu sei que nunca vai voltar.

Eu não suporto mais sentir saudades.

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Como poderia eu daqui dizer 🤔 Que é você, só você que me faz sentir 💭 De que modo posso retornar 🚶‍♂️ Se é você, só você que não me deixa...